terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NÃO TEM RECEITA PARA SEGUIR EM FRENTE


 


Dizer para alguém "seguir em frente" é, muitas vezes, uma tentativa de silenciar uma dor que o outro não sabe como acolher. já sigo — na academia, nos livros, no voluntariado. O que as pessoas não entendem é que a saudade não é um obstáculo no caminho, é parte do próprio caminhante.

Vou explicar melhor: - O Peso do Seguir às vezes tem que se transformar em  um Manifesto sobre a Dor e o Tempo e quem sabe assim assimilarem, respeitarem o outro.

Eu sigo. Mas não como vocês pensam.

 Dizem-me para "seguir em frente" como se a vida fosse uma estrada de mão única onde o passado deve ficar pelo retrovisor. Mas quem diz isso não entende que a dor não é um lugar onde se para; é um pedaço que se carrega.

Eu sigo todos os dias. Meus pés caminham na academia, meus olhos percorrem páginas de livros, minhas mãos estendem ajuda em trabalhos voluntários. Se isso não é seguir, o que seria? O que as pessoas chamam de "superação", eu chamo de sobrevivência consciente. Eu sigo com um pedaço a menos, arrancado há onze anos, quando a ordem natural das coisas se inverteu e precisei devolver uma filha.

O tempo é um mestre cruel e confuso.

Hoje, olho para um vídeo de um recital e vejo três meninas ao teclado — dez e oito anos. Faço as contas com a pressa de quem tenta segurar a areia que escorre entre os dedos. Minhas filhas já têm 40 anos, e a sensação de que a maternidade passou num sopro me aperta o peito. Parece que foi ontem, mas o calendário é implacável.

Existem muitos lutos, e o mundo é surdo para a maioria deles.

 O luto não é exclusividade do cemitério. Existe o luto em vida, aquele que ninguém leva flores.

É o luto do rompimento familiar que deixa a mesa vazia.

É o luto da autonomia perdida, de quando o corpo deixa de ser um aliado e passa a ser um limite.

É o luto do paladar, quando uma sonda substitui o prazer de uma refeição.

É o luto da visão que embaça e da mobilidade que se esvai.

Para quem olha de fora, são apenas ajustes de rotina. Para quem vive, é a perda de si mesmo em fatias.

Não me peçam para esquecer ou para "deixar passar".

A introspecção do final de ano não é um erro de percurso; é o momento em que minha alma para para contar os danos e as belezas que sobraram. Minha família é pequena, mas meu amor é vasto e minha memória é viva.

Eu sigo, sim. Mas sigo com o direito de sentir saudades. Sigo com o direito de dizer que dói. Sigo sabendo que a maternidade, em todas as suas formas e ausências, é a marca mais profunda que carrego.

Não me peça para seguir em frente. Apenas caminhe ao meu lado, respeitando o peso que eu carrego e a força que eu tenho para, mesmo assim, não parar.

4 comentários:

  1. Oi Maria Edith,

    Meu nome é Verena, tenho 37 anos e moro em Bauru/SP. Encontrei seu blog em uma busca pelo Google e suas palavras tocaram profundamente meu coração.

    Estou me organizando e me planejando para fundar uma ONG voltada aos cuidados paliativos e ao acolhimento no luto, em homenagem à minha tia, que faleceu de câncer no dia 4 de novembro de 2025. Esse projeto se chama LAR PALIATIVO. Caso queira conhecer, o Instagram é @larpaliativo e o blog é larpaliativo.blogspot.com.

    Escrevo para saber se seria possível conhecê-la, ouvi-la e conversar, na intenção de aprender com sua experiência. Tudo o que você compartilhar comigo, eu gostaria de levar adiante para beneficiar outras pessoas que vivem momentos de dor e fragilidade.

    Atualmente, estou estudando para me tornar doula da morte, pois acredito que quanto mais eu escutar pessoas que atravessam o luto, mais recursos terei para acolher quem precisa. Também realizo trabalho voluntário em capelania hospitalar na minha cidade, acompanhando pacientes em terminalidade e seus familiares. Cada aprendizado que recebo dessas vivências transformo em textos e conteúdos para o Instagram e para o blog do projeto.

    Meu maior propósito é deixar essa ONG como legado, porque durante o processo de doença da minha tia houve inúmeras falhas profissionais — tanto no cuidado com ela quanto no acolhimento de seus filhos. Faltaram orientação, presença e um cuidado paliativo verdadeiro. Por isso, criei o LAR PALIATIVO: para que outras famílias encontrem a luz e o apoio que nós não tivemos, simplesmente por não sabermos onde buscar.

    Se desejar, meu WhatsApp é (14) 9 9772-5600.

    Com carinho e gratidão,
    Verena

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    1. Oi Verena. Estava olhando seu instagram. Muito bom. Cuidados Paliativos é a minha paixao. Amo as Comunidades Compassivas. Estarei aqui para voce trocando experiencias.

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  2. Meu interesse começou aqui: https://mariaedithrufino.blogspot.com/2014/03/painel-fotografico-sobrevivendo-um.html?m=0

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